A decisão da primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, de desistir de desfilar na Marquês de Sapucaí poucas horas antes da apresentação da escola Acadêmicos de Niterói foi interpretada no meio político como uma tentativa de reduzir o desgaste do governo federal diante da polêmica envolvendo a homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Inicialmente confirmada como destaque no desfile da escola, que levou à Avenida o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, Janja acabou sendo substituída pela cantora Fafá de Belém. A mudança ocorreu após manifestações de incômodo dentro da própria base aliada.

Líderes e congressistas ouvidos pela reportagem avaliaram que a presença da primeira-dama poderia ampliar as críticas da oposição e intensificar o debate sobre possível uso político da homenagem. O Palácio do Planalto já havia orientado ministros a não participarem do desfile, sob argumento de evitar questionamentos sobre desvio de finalidade ou eventual propaganda eleitoral antecipada.

A controvérsia chegou ao Judiciário. O Tribunal Superior Eleitoral rejeitou, por unanimidade, pedido do Partido Novo que buscava barrar o desfile, alegando propaganda eleitoral antecipada e abuso de poder. O Tribunal Regional Federal da 2ª Região também negou solicitação semelhante.

Mesmo liberada por não ocupar cargo público, Janja vinha sendo alvo de críticas internas. Integrantes da base governista afirmam que a primeira-dama busca protagonismo frequente em agendas públicas, o que gera desconforto entre aliados. A desistência, segundo avaliação de parlamentares, ajudou a “baixar a temperatura” política em torno do episódio.

Não é a primeira vez que a atuação de Janja provoca ruídos. Episódios anteriores, como declarações públicas polêmicas e postagens em redes sociais sobre temas sensíveis, já haviam alimentado críticas da oposição e desconforto entre aliados.

No domingo (15), Lula compareceu à Sapucaí para assistir ao desfile no camarote da Prefeitura do Rio de Janeiro, ao lado do prefeito Eduardo Paes, ministros e autoridades. Sob orientação do Planalto, não houve uso de verba pública para custear presenças no evento.

A avaliação dentro do governo é de que, diante do ambiente político sensível, a cautela é necessária para evitar novos embates jurídicos e desgaste junto à opinião pública.