A conclusão do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia marca um novo capítulo nas relações internacionais do bloco sul-americano e pode abrir caminho para negociações com grandes economias da Ásia e do Oriente Médio. A avaliação é do ex-ministro da Agricultura e professor emérito da Fundação Getulio Vargas (FGV), Roberto Rodrigues.
O pacto, previsto para ser assinado no próximo dia 17 de janeiro, reúne um mercado de cerca de 718 milhões de consumidores e um Produto Interno Bruto combinado estimado em US$ 22,4 trilhões, sendo considerado um dos maiores acordos de livre comércio do mundo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou que a iniciativa fortalece o multilateralismo e amplia as oportunidades comerciais para o Brasil e seus parceiros.
Apesar do avanço diplomático, Rodrigues avalia que, no curto prazo, o acordo não deve trazer os ganhos esperados para o agronegócio brasileiro. Segundo ele, a existência de cotas para diversos produtos e a inclusão de salvaguardas agrícolas impostas pela União Europeia limitam o acesso ao mercado europeu, especialmente para itens sensíveis do setor agropecuário.
Ainda assim, o ex-ministro ressalta que o impacto estratégico do acordo é relevante. Para ele, o nível de detalhamento e o longo processo de negociação criam um precedente que pode atrair o interesse de países como a Índia e nações do Oriente Médio, abrindo novas possibilidades de acordos comerciais com o Mercosul.
O governo brasileiro e representantes do bloco sul-americano destacam que o tratado prevê a eliminação gradual de tarifas alfandegárias. O Mercosul se compromete a zerar tarifas sobre 91% dos produtos europeus em até 15 anos, enquanto a União Europeia deve eliminar tarifas sobre 95% dos bens do Mercosul em até 12 anos.
Na indústria, os efeitos tendem a ser mais imediatos, com tarifa zero desde o início para diversos produtos, beneficiando setores como máquinas, equipamentos, automóveis, produtos químicos e aeronaves. Já no setor agrícola, itens considerados sensíveis, como carne bovina, frango, arroz, açúcar, mel e etanol, estarão sujeitos a cotas de importação.
O acordo também estabelece exigências ambientais rigorosas, proibindo benefícios a produtos associados ao desmatamento ilegal e prevendo a suspensão do tratado em caso de descumprimento do Acordo de Paris.
Mesmo após a assinatura, o texto ainda precisará passar pela aprovação do Parlamento Europeu e dos congressos nacionais dos países do Mercosul para entrar em vigor.




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