Um mês depois do incêndio mais letal registrado em Hong Kong em décadas, a cidade ainda tenta compreender a dimensão da tragédia que deixou mais de 160 mortos e expôs falhas graves em um dos centros urbanos mais desenvolvidos da Ásia. Além da destruição material, o episódio deixou marcas emocionais profundas em sobreviventes, familiares das vítimas e até em moradores que acompanharam o drama à distância.

Entre os enlutados está Yip Ka-kui, de 68 anos, que perdeu a esposa, Pak Shui-lin, no incêndio que atingiu o complexo residencial Wang Fuk Court. Em meio à dor, ele relembra viagens feitas ao lado da companheira e revive a angústia de ter conseguido escapar enquanto ela permaneceu no prédio tentando alertar vizinhos, já que os alarmes de incêndio não foram acionados.

As chamas se espalharam rapidamente no dia 26 de novembro, atingindo sete das oito torres do conjunto, que passava por obras. Investigações preliminares indicam que materiais plásticos usados como proteção nas fachadas podem ter contribuído para a propagação do fogo, levantando questionamentos sobre padrões de segurança e fiscalização.

Especialistas em saúde mental alertam que o impacto psicológico tende a se intensificar com o passar do tempo. Psicólogos mobilizados após o incêndio relatam sinais de culpa, ansiedade e risco elevado de estresse pós-traumático entre sobreviventes e familiares. Organizações não governamentais passaram a oferecer apoio psicológico gratuito, mas há preocupação com pessoas que não buscam ajuda formal.

Enquanto a identificação de algumas vítimas ainda depende de exames de DNA, famílias seguem em estado de incerteza e sofrimento. Paralelamente, a polícia anunciou a prisão de 21 pessoas ligadas a empresas de construção e terceirizadas, sob acusações que incluem homicídio culposo e fraude.

Sem definição oficial sobre a reconstrução ou demolição do complexo, muitos moradores enfrentam a perspectiva de anos fora de casa. Para eles, além das respostas técnicas e judiciais, permanece a cobrança por justiça e por garantias de que uma tragédia dessa magnitude não volte a se repetir.