Reflexões potentes e relatos emocionantes marcaram a roda de conversa promovida pela Subsecretaria da Igualdade Racial de Guarulhos no CIC Pimentas, nesta quinta-feira (24), em celebração ao Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha e ao Dia Nacional de Tereza de Benguela (25 de julho). Com o tema central voltado às jornadas de trabalho das mulheres, especialmente negras, o evento reuniu servidoras públicas, especialistas e integrantes da comunidade para discutir os impactos do acúmulo de tarefas na saúde física e mental das mulheres.
A funcionária pública Simone Cardoso abriu o encontro com um depoimento contundente: “A realidade de muitas mulheres é trabalhar na casa de alguém e, ao chegar à própria casa, ter de fazer exatamente os mesmos serviços. Sozinha.” Sua fala foi ecoada por diversas participantes, que abordaram experiências semelhantes, revelando o peso invisível da dupla jornada.
Dados recentes da plataforma Elas Trabalham indicam que 73,4% das mulheres iniciaram tarefas domésticas antes dos 14 anos, mas apenas 9,4% reconheciam essas atividades como trabalho. Além disso, 47,2% enfrentam obstáculos impostos por seus companheiros para ingressar no mercado de trabalho, e 28% das que são mães não contam com nenhuma rede de apoio.
Essas condições se refletem em adoecimentos físicos e emocionais. A servidora Priscila França relatou as dificuldades de conquistar autonomia após décadas de sobrecarga. Segundo o IBGE, mulheres dedicam, em média, 9,6 horas semanais a mais que os homens aos afazeres domésticos e cuidados com pessoas — desigualdade ainda mais acentuada no Nordeste e entre homens com baixa escolaridade.
A assistente social Greice Oliveira destacou a urgência da divisão equitativa de responsabilidades: “Não existe ajuda, existe trabalho compartilhado.” Para o subsecretário Jorge Caniba Batista, o evento também é um chamado aos homens: “Cuidar é resistir. É hora de agir com mais responsabilidade”.
As sociólogas Silvana Benevenuto e Elisa Castro, da Subsecretaria da Igualdade Racial, também trouxeram análises sobre a invisibilidade e desvalorização do trabalho feminino, especialmente o cuidado — setor ocupado majoritariamente por mulheres negras e mal remunerado. A fotógrafa Umaitá Pires concluiu a roda ressaltando a importância do autocuidado e das redes de apoio entre mulheres: “Muitas só sobrevivem por causa disso.”
O evento reforçou a luta contra o racismo estrutural e o machismo, trazendo à tona realidades que muitas vezes são silenciadas. A data homenageia a resistência e a liderança de mulheres negras em toda a América Latina e no Caribe, como Tereza de Benguela, símbolo da resistência quilombola no Brasil.
0 Comentários